O Susto
Não tive a
menor intenção de lhe causar mal. Não imaginava que aquilo pudesse acontecer.
Eu, que nem tinha coragem de pisar numa barata sem fechar os olhos e tapar o
ouvido, não pretendia assustar tanto a pobre criatura. Pelo menos não ao ponto
de matá-la. Essa parte foi totalmente sem querer. O susto, aceito, foi
intencional, mas como poderia saber que ela sofria do coração? Eu nem tinha
gritado tão alto assim. Com certeza seu coração já devia está pedindo arrego. Morrer
de susto era só força de expressão, não era para acontecer literalmente. E no
mais, eu sei que não tinha gritado tão alto porque não queria acordar o
bebê. Ele continuava a dormir no
carrinho, ainda bem, não tinha nem pulado quando eu dei o berro. Pra você ver
que o grito não tinha sido dos maiores. Respirei fundo. Tinha que me controlar.
Deixe eu me
explicar, contar desde o início. Eu havia saído de casa naquela manhã como faço
todos os dias, às sete horas, para passear com o bebê. Meu primeiro filho. O
primeiro de sete. E sete era o meu número da sorte. Havia nascido no dia sete
do sete. Tinha namorado sete anos antes de casar. Casei em 77 aos 27 anos...
Bem, mas isso
não vem ao assunto em questão, era só para vocês perceberem que era um dia como
outro qualquer e que eu sou uma pessoa normal como outra qualquer.
Brasília não
é exatamente um lugar onde se encontra muitas pessoas pela rua para conversar,
especialmente àquela hora da manhã. Então, sempre que encontrava alguém,
gostava de parar para bater um papo. Meu marido trabalhava o dia todo e a
faxineira, quando aparecia, entrava muda e saía calada. Um verdadeiro tédio...
Minhas
únicas opções eram ter longos monólogos com o bebê, que sempre me olhava como
se não estivesse entendendo. Então, como sempre achava que tinha que explicar
melhor, não saíamos do mesmo assunto. A outra opção era simplesmente procurar
alguém na rua para não enlouquecer.
Bem, era um
dia como outro qualquer. A única diferença era que naquela manhã em especial,
decidira que ia fazer algo diferente. Na noite anterior, enquanto colocava o
neném para dormir, tinha visto parte de um programa. Nunca conseguia ver nada
por inteiro. Para mim, sete minutos de qualquer coisa já bastava.
Bem, o
programa dizia que tínhamos de experimentar fazer algo diferente todos os dias
para aproveitarmos melhor a vida. Achei uma ótima idéia. Então decidi que, no
dia seguinte – o sétimo dia do mês – seria o dia ideal para se começar qualquer
coisa e faria algo que nunca fizera antes.
Talvez não
tivesse escolhido a melhor coisa para fazer. Bem, com certeza escolhi a pessoa
errada. Era para ser só uma brincadeira, uma pegadinha, dessas que a gente vê
na televisão. Deixe-me explicar melhor. É que desde pequena eu tinha vontade de
dar um susto em um desconhecido na rua. Sabe desses sustos que a pessoa vem por
trás e dá um grito e o outro se treme todo de pavor. Depois, é para os dois se
olharem e caírem na gargalhada e começarem a conversar, podendo até se tornarem
amigos.
Foi o que eu fiz. Só que eu não havia percebido que ela era
tão velhinha. Hoje em dia a gente olha as pessoas por trás e acha que tem no
máximo uns trinta anos. Depois quando vai olhar a cara, percebe que já passou
dos setenta.
Como ia saber? Era culpa dessas modas que todas as mulheres,
não importando a idade, usam. Pelas costas não tem como saber a idade de uma
pessoa. Às vezes, nem mesmo pela frente. Com tanta plástica diferente que
existe por aí. Tem que olhar bem de perto, observar a pele do pescoço.
Se bem que o fato
dela estar usando uma bengala deveria ter me alertado. Mas eu não tinha parado
para pensar. Tinha ficado tão contente em encontrar outra pessoa acordada e
caminhando àquela hora e com a possibilidade de poder começar logo cedo a
colocar meu plano em ação que não tinha dado tempo de parar para pensar nas consequências.
Fui devagarzinho por trás dela e assim que dei o berro ela
foi se desmilinguindo e caiu no chão. Os olhos abertos. Bem, melhor dizendo, esbugalhados
de susto. E eu fiquei ali paralisada por um minuto, também tinha levado um
susto. Aquilo não era exatamente o resultado que eu esperava.
Então, abaixei para tocar seu pescoço como já havia visto
inúmeras vezes em filmes. Mas nada pulsava e seus olhos me fitavam acusadoramente.
Olhos azuis, que lindos! Desculpa, disse baixinho. Levantei rapidamente e olhei
em volta, não havia nenhum outro ser vivo por perto. Alguém deu uma gargalhada!
Pulei e olhei ao meu redor só para descobrir que tinha sido eu mesma. Tapei a
boca com força. Precisava sair logo dali. Olhei para o carrinho. O neném dormia
feito anjinho.
Peguei o carrinho e sai apressadamente. Sentia que olhos me seguiam
enquanto me afastava. Que bobeira, só tinha eu aqui!? Coitada, pensei, era sua
hora. Não foi minha culpa com certeza. Suspirei aliviada. Olhei para o relógio.
Eram sete e treze. Acho que a velhinha tinha morrido às sete e sete. Que sorte,
hein?
Acelerei o passo, pois precisava passar no mercado para
comprar feijão para o almoço.